O processo é conhecido. Os custos crescem, os competidores avançam, e
os acionistas querem resultados. Saída: renovar os quadros. Leia-se:
livrar-se dos funcionários mais velhos e caros, contratar jovens efebos,
com muita vontade e pequeno salário. Dito e feito. Então, o trabalho
emperra, os clientes reclamam, mas a planilha de custos fala mais alto.
Assim tem sido: a cada crise, interna ou externa, as empresas
rejuvenescem seus quadros. Alguns observadores batizaram o processo de
“juniorização”.
Uma empresa “juniorizada” salta aos olhos. Antes, o escritório,
silencioso e solene, era dominado por calvícies e cabelos brancos. Seis
meses depois, o nível de ruído aumentou, e uma horda juvenil se
estabeleceu. Foram-se as regras e procedimentos, substituídos por um
frenesi frequentemente confundido com agilidade e produtividade. O mais
importante é, porém, que a folha de pagamento foi reduzida. Inferno na
Terra, paz no Olimpo corporativo.
O
Brasil está envelhecendo. Pesquisa recente mostra o despreparo das
empresas para lidar com profissionais mais maduros. Foto: Phillie
Casablanca/Flickr
Renovar sistematicamente os quadros é um princípio de gestão
importante para as empresas. Profissionais mais jovens trazem novas
ideias, colocam em xeque processos anacrônicos e ajudam a evitar que a
empresa envelheça e perca o contato com as mudanças em seu ambiente de
negócios. A renovação, realizada na medida certa, traz efeitos
positivos.
A juniorização, por sua vez, quando realizada com o propósito
de reduzir custos, compromete a qualidade da gestão e põe em risco o
futuro das companhias. Vista como panaceia, evita que a empresa trate de
questões mais substantivas, relacionadas ao seu modelo de negócios e às
suas práticas de gestão.
Além disso, a juniorização segue na contramão da demografia. O Brasil
está envelhecendo. Nas próximas décadas, as empresas terão de lidar com
quadros profissionais cada vez mais maduros. Uma pesquisa recente,
realizada pela consultoria PwC e a FGV-Eaesp, instituição à qual este
escriba está ligado, procurou avaliar como o mundo corporativo se
prepara para o fenômeno. Foram ouvidas mais de cem empresas, de diversos
segmentos da economia. Algumas conclusões são preocupantes.
Em primeiro lugar, menos de 40% das organizações pesquisadas
reconhecem que quadros mais maduros podem constituir alternativa para a
escassez de talentos, problema hoje de centenas de corporações
brasileiras que estão freando seus planos de crescimento.
Consequentemente, não há na maioria das empresas mecanismos para atrair e
manter tais quadros.
Em segundo lugar, as companhias reconhecem: profissionais mais
maduros possuem competências valiosas, relacionadas à capacidade de
realizar diagnósticos e resolver problemas, além de apresentar maior
equilíbrio emocional. Paradoxalmente, elas não contam com modelos de
gestão de carreira que facilitem os processos pelos quais tais
características poderiam ser mais bem exploradas. Além disso, as
práticas para os mais velhos transferirem experiência aos mais jovens
são pouco desenvolvidas.
Em terceiro lugar, há poucas iniciativas para garantir maior
qualidade de vida e para ter quadros mais saudáveis no futuro. Há também
poucas ações para acomodar o perfil e as necessidades dos profissionais
próximos da aposentadoria.
Em suma, a maioria das empresas parece não ter ainda tomado
consciência de que a evolução da pirâmide demográfica e as mudanças no
mercado de trabalho demandarão alterações nas práticas de gestão de
carreiras. No centro da questão situa-se uma dificuldade para reconhecer
o valor de quadros mais maduros e para administrá-los.
Psicólogos têm desenvolvido escalas para observar e medir a
capacidade de indivíduos realizarem raciocínios ponderados e maduros.
Tais escalas consideram, entre outros fatores, o desejo de procurar
oportunidades para resolver conflitos, a disponibilidade para buscar
soluções de compromisso, o reconhecimento dos limites do conhecimento
pessoal e de que podem existir diferentes perspectivas para resolver um
problema.
Segundo estudos realizados pelo psicólogo social canadense Igor
Grossmann, da Universidade de Waterloo, com norte-americanos, indivíduos
mais velhos obtêm, em tais escalas, escores mais altos. A sabedoria vem
mesmo com a idade. Entretanto, a cultura na qual os indivíduos estão
imersos também interfere, acelerando ou, eventualmente, retardando o
processo de amadurecimento.
Organizações que apostam na juniorização com o propósito de reduzir
custos e ignoram a evolução do nosso perfil demográfico agem contra seus
próprios interesses. Além de desperdiçar competências e características
da maturidade, podem estar inadvertidamente estimulando uma cultura que
inibe o amadurecimento.
Fonte: Carta Capital
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